A Voz e os Êxitos (Decca, 1966)
Lado A: 1 - Pingos de Chuva (José Drumond - David Mourão-Ferreira) / 2 - O Nosso Além (Manuel Viegas) / 3 - Fúria de Viver (José Drumond) / 4 - Que Fizeste Tu de Mim (Manuel Viegas) / 5 - Nunca Mais (Jaime Lisboa - Aldi Cruz) / 6 - Ninguém Gosta de Mim (Jaimes Lisboa - Aldi Cruz)
Lado B: 7 - Tu Sei Quello (L. Beretta - A. Anelli) / 8 - Yesterday (Lennon - McCartney) / 9 - Que C’est Triste Venise (F. Dorin - Charles Aznavour) / 10 - Saudade (Y. Zaral - Y. Gilboa) / 11 - Algo Mejor (J. Cassar - adapt. Alberti) / 12 - Lovely Lies (Mackay Dayashe - Joe Glazer)
1 - 3 - 5 - 6: Orquestra dirigida por Thilo Krasmann; 2 - 4: Orquestra dirigida por Manuel Viegas; 7 - 8 - 9 - 10 - 11 - 12: Orquestra dirigida por Joaquim Luís Gomes
Simone canta para espalhar seus males, que são agonias de paixão, tédios de horas mortas, as saudades que rasgam a carne e a vontade de ter a vida bem agarrada nas mãos e nos dentes. Simone não veio a este mundo para colher flores em jardins tranquilos e com estátuas, mas sim para acordar e animar de sangue essas mesmas estátuas, dando-lhes a respiração das noites quentes e os gestos de amor. Tudo o que ela confessa, cantando, vibra como sinos de alarme. Simone é um incêndio na canção portuguesa.
Muito depressa Simone se encontrou. O estilo com que se impôs foi buscá-lo ao seu temperamento e não a qualquer escola. Não se aprende a confessar uma pena que dói como um espinho em escolas de canto ou de arte de dizer.
Logo que a canção começa, Simone surge imediatamente à superfície, sem véus e sem disfarces, como se em cada frase revelasse, insatisfeita e indomável, as páginas de um diário íntimo que é forçoso tornar público, para que o mundo saiba que o amor desgasta, fere e mata. Essa ausência de ..., que é o desejo da confissão total, deu à voz de Simone uma autenticidade fortíssima, um retrato sem retoques.
Quando principiou, Simone apareceu como era infalível: com canções que ninguém havia escrito para ela e ou eram coisas pueris, de amar e rimar com luar, ou aguarelas patetas de folclore. Não demorou muito a provocar a inspiração dos melhores autores e, então encontrando o seu verdadeiro caminho, pôde pelos quatro ventos distribuir o que sinceramente tinha para comunicar cantando.
Neste álbum de doze canções e em cinco idiomas, Simone "fala" com um só sotaque: o do amor. E se esta linguagem é universal, não há dúvida que onde a voz de Simone chegar, o recado há-de ser compreendido imediatamente. Há uma impressionante clareza e uma poderosa vibração em qualquer destas doze interpretações que não podem diluir, por cinco maneiras de expressão, a personalidade total, sólida e inquebrável de Simone.
Francisco Mata